Homens amam homens: red pill, looksmaxxing e a misoginia que virou moda

homem em destaque com sombras

Movimento red pill, looksmaxxing… misoginia virou moda.

Você já notou como homens geralmente reservam respeito, amor e admiração para outros homens? 

Em 1983, a filósofa Marilyn Frye escreveu:

Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais com mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens hétero reserva exclusivamente para outros homens.

Estamos em 2026 e o pensamento continua atual. Homens preferem contratar homens. Consomem trabalhos feitos por homens. Costumam admirar, confiar, defender, ouvir homens. Tendem a ser amigos de homens.

E como se isso não fosse o suficiente, esse padrão não ficou restrito ao mundo privado.  Agora ele tem narrativa, nome e comunidade na internet.

Do movimento red pill ao looksmaxxing, a misoginia encontrou formas novas de se organizar, se justificar e se espalhar. Entender esses fenômenos não é opcional. É necessário.

Homens amam homens… na cultura

Amor, respeito e admiração masculinos são reservados a homens. Exemplos:

“Bros before hoes” (“amigos antes, vadias depois”), que faz com que homens se unam pra se proteger. Você já deve ter visto um acusado de assédio, estupro, ser defendido por caras que nem o conhecem…

“Mulheres obrigam homens a casar”/ “Perdemos um soldado” (presente em filmes, manchetes e até na decoração de casamentos)

– Arte feita por mulheres é “feminina”, já a produzida por homens… é “para todos”.

O sonho de ter um filho, que por muito tempo foi o único herdeiro legal, enquanto a filha era considerada apenas como uma posse a ser transferida do pai ao marido.

Se um homem…

– Assedia uma mulher e depois nota que está acompanhada… Pede desculpa ao homem, não a ela.

– Se desenvolve interesse romântico por uma amiga, ele merece ser correspondido. Se ela não “der uma chance”, é culpada por colocá-lo na “friendzone”. No fundo, o que a ideia diz é: ser amigo de uma mulher é um esforço que deve ser compensado de alguma forma.

– É promovido, foi mérito. Se uma mulher é promovida, “deve ter dado para alguém”.

No trabalho, costumam…

Contratar, promover, respeitar e indicar outros homens;

Interromper mulheres frequentemente e ouvir homens com mais atenção.

O que é o movimento red pill?

O termo “red pill” vem do filme Matrix (1999): o personagem Neo pode tomar a pílula azul, que o manteria na ignorância, ou a vermelha, que revelaria a verdade sobre o mundo

Grupos masculinistas se apropriaram dessa metáfora para construir uma narrativa específica: a de que a verdade que eles “revelam” é que as mulheres são aproveitadoras, controladoras e manipuladoras.

Esse movimento defende o tradicionalismo patriarcal: masculinidade e feminilidade rígidas.

O homem não deve demonstrar emoções, dividir tarefas ou abraçar outros homens

Já a mulher ideal tem um padrão de beleza específico (geralmente branco) e deve se submeter às vontades desse homem. 

Quem não se submete é chamada de “vagabunda” ou “feminista” e, segundo eles, não merece estar na sociedade.

Para os red pill, homens são seus parceiros, sua “alcateia”, ele é um alfa quando é um homem incrível (nos padrões deles) e um beta se sai desse padrão (que vai de coisas simples como gostar de um tipo de série até defender os direitos das mulheres).

E categorizam as mulheres em mínimos detalhes. Elas precisam se encaixar no estereótipo de mulher tradicional perfeita (as chamadas trad wives, mas isso é tema para outro post) para serem consideradas alguma coisa

Se uma mulher não se encaixa no check-list deles, é um lixo humano. Tem tatuagem de borboleta, amiga? Fora da lista.

O que é looksmaxxing?

O red pill tem o ódio como narrativa, o looksmaxxing foca no corpo. 

O termo, que surgiu nos mesmos fóruns de incels (celibatários involuntários) e comunidades red pill nos anos 2010, descreve a tentativa de maximizar a aparência física masculina para aumentar o chamado “valor de mercado sexual” (VMS): a probabilidade de as mulheres os acharem atraentes.

O ideal físico defendido é rígido: queixo quadrado, “olhos de caçador”, estatura entre 1,85m e 1,93m, físico musculoso, pele sem imperfeições. 

As práticas podem ser:

  • Softmaxxing: cuidados convencionais com pele, academia, corte de cabelo
  • Hardmaxxing: cirurgias, esteroides e até o chamado bonesmashing, que consiste em bater o próprio rosto para tentar torná-lo mais anguloso. 

Vídeos com tutoriais com mais de 250 milhões de visualizações no TikTok…

Engraçado como esse cuidado estético não é considerado futilidade, como moda e beleza para mulheres… A masculinidade dos homens nesses movimentos é tão frágil que um ato de autocuidado precisa ter uma “embalagem” mais máscula.

O objetivo (segundo eles mesmos) é conquistar mulheres através da aparência física. Eles acreditam que, sendo visualmente atraentes para mulheres, garantem poder sobre o gênero feminino.

Mas quando você vê os conteúdos desses homens, quase não tem mulheres. Todo o movimento é sobre homens aplaudindo e admirando homens.

E o que mais assusta em tudo isso é que tem meninos vendo tudo isso na internet que estão crescendo achando que é normal.

Reflita e repasse: Homens que amam mulheres:

  1. Indicam mulheres. No trabalho, nas redes sociais, na vida pessoal.
  2. Entendem que todas merecem respeito. E não só as que cumprirem uma cartilha sexista de bom comportamento.
  3. Não duvidam da capacidade feminina – e nem se apropriam das suas ideias.
  4. Consomem trabalhos feitos por mulheres. Não classificam, por exemplo, filmes roteirizados, dirigidos ou protagonizados por elas apenas como “femininos”. O mesmo para livros, HQs, séries, games, etc.
  5. Têm referências e inspirações femininas.
  6. Apontam o machismo na roda de amigos.
  7. Acreditam em amizade entre homem e mulher – e não alimentam a falácia da “friendzone“

 

Ajude mulheres a entender que a nossa aliança, sempre tão balançada pela socialização femininas e pelo patriarcado, é necessária.

Convide homens a refletir. Os que ainda amam apenas homens e os que já respeitam e admiram mulheres. Talvez, eles também compartilhem o conteúdo e levem o texto a pessoas que jamais pararam pra pensar nisso (e deveriam).

 

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27 anos, nordestina em SP, publicitária graduada e pós graduada pela USP, escritora e apaixonadíssima por moda, cinema, viajar e sorvete. Fico entediada bem rapidinho com as coisas, então, costumo fazer várias ao mesmo tempo. Vivo à procura de encanto.

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